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terça-feira, 17 de julho de 2012

Amar


Que pode uma criatura,
entre criaturas, amar ?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar ?
sempre, e até de olhos vidrados, amar ?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar ?
amar o que a mar traz a praia
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia ?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
 e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonhos, e uma ave de rapina.

Entre o nosso destino: amor sem conta
destribuido entre as coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada e uma completa ingratidão,
e  na concha vazia do amor a procura medrosa
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implicita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

O amor bate a aorta


Cantiga de amor sem eira
nem beira,
vira o mundo de cabeça
para baixo,
suspende a saia das mulheres,
tira os oculos dos homens,
o amor, seja como for,
é o amor.

Meu bem, não chores
hoje tem filme do Carlito!

O amor bate na porta
O amor bate na aorta,
fui abrir e me constipei,
Cardiaco e melancólico,
o amor ronca na horta
entre pés de laranjeiras
entre uvas meio verdes
e desejos já maduros.

Entre uvas meio verdes,
meu amor, não te atormentes
Certos acidos adoçam
a boca murcha dos velhos
e quando os dentes não mordem
e quando os braços não prendem
o amor faz uma cócega
o amor desenha uma curva
propõe uma geometria

Amor é bicho instruido,
Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que escorre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem
ás vezes não sara nunca
ás vezes sara amanhã.

Daqui estou vendo o amor
irritado, desapontado,
mas também vejo outras coisas:
vejo corpos, vejo almas

Poema de Sete Faces


Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos ! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é serio, simples e forte.
Quase não conversa
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução
Mundo mundo vasto mundo
mais vasto é meu coração.

Eu não deveria te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

Soneto da Perdida Esperança



Perdi o bonde e a esperança
Volto palido para casa.
A rua é inutil e nenhum auto
passaria sobre meu corpo

Vou subir a ladeira lenta
em que os caminhos se fundem.
Todos eles conduzem ao
principio di drama e da flora.

Não sei se estou sofrendo
ou se é alguém que se diverte
por que não ? na noite escassa

com um insoluvel flautim.
Entretanto há algum tempo
nós gritamos: sim! ao eterno